Lajedo Alto e sua comovente resistência para manter a Festa do Bonfim

Cleidiana Ramos

Fotos: Claudio Rodolfo

Sentimentos divergentes me tomaram nestes dias por conta da Festa do Bonfim de Lajedo Alto. Em um primeiro momento veio a frustração quando soube que um dos elementos mais bonitos e caros à festa- a lavagem da área externa da igreja dedicada ao culto ao Senhor do Bonfim na localidade- não acontece há, no mínimo, oito anos. Mas a esperança de que haja algum tipo de saída para a revitalização, com o retorno de elementos como estes ou criação de novos, me fizeram ir neste domingo até o distrito de Iaçu, que fica a cerca de 70 quilômetros da sede. Chegando lá, fui  tomada por uma alegria comovida de perceber como algumas pessoas do lugar batalham pelo menos para manter as novenas, a missa e a procissão.

Nilson Moura, que foi vereador pelo distrito por quatro mandatos e continua um entusiasta do formato antigo da festa, estima que ela começou há cerca de 40 anos. E aí vem uma informação interessantíssima que despertou ainda mais o meu interesse pela festa de Lajedo Alto: segundo ele, a festa começou por estímulo do monsenhor Walter Jorge Pinto de Andrade (1939-2020).

Padre Walter Pinto foi reitor da Basílica de Nosso Senhor do Bonfim, localizada em Salvador, de 1981 a 2008. Em seguida foi pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Purificação, localizada em Santo Amaro, até 2014. No ano seguinte, se tornou vigário na Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, na capital baiana.

Ele era natural de Conceição do Almeida, município do Território de Identidade do Recôncavo, mas que integra o território diocesano de Amargosa. Com fazenda de origem familiar na região de Lajedo Alto, Monsenhor Walter, ao que parece nestas primeiras informações que recolhi sobre a festa, incentivou a instalação do culto no distrito de Iaçu. São marcas das conexões históricas dos territórios do Piemonte do Paraguaçu e Chapada Diamantina, por conta do processo de consolidação da colonização da Bahia, com o Recôncavo e a capital do Estado.   

“Ele reuniu três famílias daqui de Lajedo e aí elas iam se sucedendo na presidência da festa”, conta Nilson Moura. Liderança política local há décadas, Nilson Moura auxiliou na organização dos festejos, sobretudo da lavagem reunindo as baianas de localidades como Iaçu, Feira de Santana e Salvador. Outra atividade em que esteve envolvido foi o Bloco das Nigrinhas, uma atividade lúdica onde os homens saíam com roupas femininas após a lavagem da área externa da igreja com água de cheiro e alfazema, assim como acontece em Salvador.  

A festa em Lajedo Alto começava com alguns eventos lúdicos, além das novenas, na sexta-feira, a lavagem e o desfile do bloco ocorriam no sábado com trio elétrico, carro de som ou show, e, no domingo, aconteciam, como ainda hoje, a missa e a procissão. Outro elemento interessante: o calendário do Bonfim em Lajedo Alto, para os eventos católicos, segue o mesmo parâmetro da Festa do Bonfim de Salvador: o segundo domingo após a Festa da Epifania, mais conhecida como Festa de Reis, em 6 de janeiro. Esta foi uma decisão do arcebispado de Salvador para organizar os festejos da devoção que ganhou projeção na capital a partir da construção da igreja em 1745.

Perdas

O desaparecimento da Lavagem é resultado de leituras equivocadas de administrações municipais não apenas em Iaçu, mas em vários outros municípios. Manifestação cultural que que agora recebe apoio público é quase exclusivamente festa no modelo show na praça. Assim foi com Lajedo Alto, assim tem sido com outras comemorações dos calendários locais, inclusive o São João. O investimento é em “atrações” que flutuam com o gosto de parte do público, geralmente o mais jovem, da vez. Assim as festas se resumem em receber aplausos -ou não- se tem a estrela do arrocha, do piseiro ou outra ritmo que estiver em evidência independentemente de qualquer conexão com as culturas locais.

Nada contra shows, afinal eles fazem parte do modelo de comemoração destas festas, inclusive em Salvador. O problema é a certeza das prefeituras de que cumpriram seu papel quando montaram o palco para oferecer música das 20 horas até as primeiras horas do dia seguinte. Mas uma festa como a de Nosso Senhor do Bonfim em Lajedo Alto vai muito além de quem cantou, inclusive como atração principal. A festa é celebração de memórias, de continuidade, de vínculo comunitário e prescinde de agradar ou não determinados segmentos da população local.

Inclusive, o que mais escutei nas horas que passei nessa manhã de domingo em Lajedo foi o lamento, inclusive de pessoas jovens, pela ausência da lavagem com as baianas e até do desfile do “bloco das Nigrinhas”. Isso era o diferente da festa de Lajedo, um lugar vibrante e que tem visibilidade política anterior à emancipação de Iaçu, em 1958. Tanto que o candidato que disputou com Joel Barbosa- o primeiro prefeito- foi Vivaldo Andrade que já exercia mandato de vereador em Santa Terezinha, território municipal do qual Iaçu fazia parte.

É em Lajedo Alto que há grande concentração da arte de tecer com palha chapéus, esteiras e outros objetos. De lá saiu o Trio Nogueira, que ganhou visibilidade até fora da Bahia com o forró pé-de-serra e que animava o São Pedro no clube local antes mesmo que Iaçu tivesse festa de São João organizada em praça pública. O São Pedro de Lajedo Alto era a festa junina de maior visibilidade municipal até meados da década de 1990. Ainda menina eu ficava encantada em manipular um LP gravado pelo Trio Nogueira e que meu pai recebeu de presente. Ele faz parte da coleção que minha mãe faz questão de manter até hoje.

Lajedo Alto deu à cultura iaçuense  o multiartista Cainana. Artista Plástico, produtor cultural ele ainda realizava performance. Lembro de uma que rendeu comentários e debates, mas muito pouca censura, em que ele desfilou na micareta de Iaçu, em meados da década de 1980, com uma indumentária composta apenas por tapa-sexo frontal e um fio dental no bumbum.  De lá também apreciamos por décadas o talento musical de Téo Guedes.    

Resistência  que dá esperança

A procissão saiu da porta da casa de uma senhora conhecida como Vandinha com as imagens do Senhor do Bonfim e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Itatim, paróquia a que Lajedo está vinculado. Coisas das divisões territoriais políticas e religiosas diferenciadas. Itatim, realmente, é cidade mais próxima do distrito do que Iaçu, sede municipal do território ao qual Lajedo Alto, politicamente, pertence.

A importante estação ferroviária de Lajedo Alto está em estado de semi-arruinamento

Após percorrer as principais ruas do distrito, a procissão chegou até o espaço aberto e coberto situada ao lado da igreja onde a missa foi celebrada. Uma das participantes da festa religiosa comentou rapidamente comigo que é uma pena que agora a festa, para as instâncias da prefeitura, se resuma ao show na praça. Eu apenas respondi a ela que realmente é uma pena, mas, depois, pensando melhor, imagino que o povo de Lajedo Alto, que tem força para manter parte da sua celebração maior, vai encontrar um caminho para trazer os elementos perdidos ou introduzir os novos, afinal os poderes do povo quando se trata de festa e suas dinâmicas são impressionantes.   

Confira o vídeo com momentos da festa deste ano.

Cleidiana Ramos é jornalista, doutora em Antropologia, professora substituta na Uneb-Campus XIV- Conceição do Coité e pesquisadora nos campos de Antropologia da Festa, Antropologia das Religiões, Cibercultura, Jornalismo Literário, Jornalismo-Memória e Memória Social. É autora do livro-reportagem os Caminhos da Água Grande- Município de Iaçu e suas histórias para o desenvolvimento; Cibervida, Cibemorte, Cibersorte.